Esse não é um texto sobre amor, mas sobre como eu amava os domingos ao seu lado

 

Esse não é um texto sobre amor, mas sobre como eu amava os domingos ao seu lado 1

Monique Souza

Os domingos tornaram-se dias difíceis, eles acostumaram a ser os piores da  semana. Hoje amanheceu com chuva e acabei passando boa parte do tempo deitada, rememorando cada segundo que ficávamos grudadas nesses domingos nublados.

Lembrei dos vários copos que deixávamos espalhados pelos cômodos da casa e dos gestos que entregavam nossa preguiça. Das idas e vindas à cozinha, do abre e fecha da porta da geladeira e, das vezes que você perdia no par ou ímpar e tinha que se levantar da cama.  Parecíamos duas mulheres da caverna lutando por sobrevivência num dia marcado por preguiça, comida e chuva.

Choveu muito pela manhã. Já prevendo que domingos são dias difíceis e demoram a passar, saí cedo para comprar jornal. Aqui, onde moro atualmente, há somente uma banca e o expediente se encerra às 12h.

Imaginei passar intermináveis horas lendo um interminável jornal e quando já não houvesse mais o que ler eu assistiria filmes, depois pegaria um daqueles livros que compramos juntas no sebo e, que há anos venho enrolando a leitura.  Apenas folheei cadernos em que as matérias pareciam ser sem interesse público e portanto, desnecessárias.

Não bastasse a nostalgia do domingo, meus dedos caçaram algo que falava sobre as novas áreas de atuação de advogados. Sem hesitar, quis mais que depressa ler em voz alta com a certeza de que no final do texto discutiríamos, entre uma xícara e outra de café, as novas possibilidades do seu escritório crescer. Fechei a página com os olhos carregados de lágrimas e pensei no quanto eu desejava desaprender qualquer assunto que lembrasse você.

Não foram apenas os domingos que se tornam vazios desde que decidimos terminar nosso relacionamento. Tenho convivido com o vazio diariamente. Ele mora no barulho e no silêncio.

Nesses anos todos, jamais imaginei que uma coisa boba seria de tamanha importância no dia em que não estivéssemos mais juntas. Embora nunca enxerguei minha vida sem você.

Ontem saí para comprar um jogo de cama, coisas que a gente fazia como uma perfeita dupla dinâmica e, de curiosas, pedíamos para olhar a coleção nova do Alexandre Herchcovitch.

Acontece que, desde que nos separamos venho me adaptando a um espaço menor e, a palavra casal me confundi ainda com minha condição de solteira. Cometi a gafe de pegar um lençol de casal para uma cama de solteira.

Lembrei das vezes que ficávamos horas na loja tentando estabelecer, diante o vendedor, algum acordo sobre a escolha da estampa. Eu ia de florais coloridos e você de tons claros e clean. Com o tempo, te convenci que era legal adicionar mais cor no nosso cafofo.

Sigo tentando me adaptar a uma vida unitária, embora seja estranho conviver com a ausência de uma presença da qual durou longos 7 anos. Aos poucos vou lidando com a ideia de não ter alguém para ler o jornal, dividir os palpites, alguém para quem cozinhar, ficar juntinhas no sofá até ele afundar, trocar carícias com os pés, exercitar no final do dia e não ter alguém para amar num domingo chuvoso.

Tenho preferido as segundas-feiras, aquelas que nos engole para viver as obrigações da vida sem ao menos termos tempo de pensar nelas.

Sobre Monique, a destemida

Para mim o céu é o limite. Vivo como uma adolescente que sonha em mudar o mundo. Acredito no ser humano e na força do bem sobre o mal. Curiosa por natureza e jornalista por formação, adoro conhecer pessoas por meio de suas histórias e transformá-las num belo registro fotográfico. Paixão e ousadia que me levaram aos caminhos do fotojornalismo.

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