Entre um e outro chacoalhão

Entre um e outro chacoalhão 1

Fazia um calor terrível, e os bancos do lado direito, onde não batia sol, eram os mais disputados. Pus os fones de ouvido e intentei tirar um cochilo, tarefa difícil em meio aos chacoalhões do ônibus. A primeira música nem havia terminado quando um senhor distinto se apoiou ao meu lado. No mesmo instante ofereci meu lugar. “Magina. Com esse calor, só em pé pra aguentar”, e soltou um riso frouxo. “Se tá calor assim, imagina em Santos ou no Rio. O sujeito queima até a buzanfa.” Rimos.

“Olha, menina, eu não gosto daqui. Eu sou do Nordeste, vim pra cá com 12 anos, lá pra Barretos. Ahh, eu gosto daquela cidade, viu. Tenho até casa lá. Só o terreno vale uns 200 mil. Mas não teve jeito não, filha. Os filho tudo aqui, dependendo da gente. Pra piorar, a mulher morreu. Só ficou eu pra ajudar. Teve jeito não, filha… Aí fiquei aqui de vez, já faz 50 anos! 50 anos! Então você imagina meu sofrimento. Se não fosse pelos filhos e netos, eu tava é na roça. Eu sou da roça, sabe… Na roça você planta o que é seu, colhe o que é seu, sabe o que tá comendo… Olha, quem não gosta da roça não gosta de Deus. Veja você, de onde vem tudo que a gente tem? Nossas roupa, comida, calçado… vem tudo da roça. Eu queria é vender tudo que eu tenho e comprar uma terrinha, mas não tem como. Meus filho tudo depende de mim, e a minha menina só me dá dor de cabeça. Agora eu cuido dela e da filha que ela fez com um pilantra aí, um sujeito salafrário. Cê acredita que o desgraçado não ajudava com nada, só vivia encostado, pra rua, na gandaia… e quando chegava em casa ainda metia a mão na minha menina? Aí depois se resolviam, mas no dia seguinte voltava a meter a mão na cara dela. Ahhh, eu não aguentei não, menina. Você imagina ver sua filha sofrendo na mão de um vagabundo, porque é isso que ele é: um vagabundo. Ahh, eu não aguentei. Pois fui atrás dele, meti-lhe um golpe nas costela que o sujeito foi até parar no hospital com problema no pulmão. Depois disso, nunca mais deixei chegar perto delas. Aí eu tive que cuidar, né. Meu sangue. Aí tive que alugar a casa em Barretos. Mas seu eu pudesse tava lá. Ô terra boa. Ali perto tem um rio onde os pessoal construiu as casa em volta, cheio de quiosque, barraquinha, essas coisas. Aí no final da tarde o povo encosta ali pra ver o sol se pondo e pra tomar uma geladinha na beira do rio com os amigos, jogar conversa fora. Isso sim que é vida, filha… Não esse monte de tijolo e prédio que tem aqui, não. Todo mundo escondido, enfurnado em casa ou no trabalho, com medo, cansado demais, estressado demais sempre… Povo não sabe o que é a vida não, menina…”

Dei-lhe razão e devolvi o sorriso com o qual ele iniciara a conversa. Descemos do ônibus e não o vi mais, apenas pessoas apressadas, caras enfezadas, olhos cansados, passos agitados e barulho. É… não sabemos o que é a vida não, senhor.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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