Entre o prazer e o pavor de estar aqui

Não! Definitivamente não é como xixi, que sai fácil, todo dia, várias vezes, sem esforço. O ato de escrever exige inspiração, muita leitura – mesmo, compromisso, hábito, dosagem de talento, conhecimento, persistência, erudição, criatividade, tempo para construir, reconstruir, descartar, recomeçar; e, muitas vezes, mesmo juntando e fazendo tudo, a tela demora a ser preenchida, já que papel, hoje, é um item totalmente e politicamente dispensável.

O resultado nem sempre agrada a todos; e desencanta – invariavelmente – o escritor ou o próprio autor. É uma eterna frustração e a certeza de que sempre poderia ser melhor. Carrego essa convicção: nenhuma grande referência literária, ali na sua subjetividade e segundos de sensatez, imaginou, em algum momento, que se tornaria um grande clássico ou sucesso, quando ainda escrevia. Imagine, então, quem está na largada da corrida, pela primeira vez.  Não dá pra pensar em vitória. A gente só tenta cumprir e concluir o trajeto.                                                                                                              

Mas de volta à referência fisiológica, ela não parece ser das mais belas para associar o prazer de construir um texto, mas emprestei do jornalista e apresentador Pedro Andrade, que no último Manhattan Connection, afirmou  que para Stephen King, o mestre do terror/horror, escrever era o mesmo que fazer xixi, uma vez que seus textos simplesmente fluíam. Longe da estética, próximo da precisão. Para justificar a extensa e bem-sucedida bibliografia do autor, a comparação cabe, sim, perfeitamente. São inúmeras as obras de ficção, séries, minisséries, contos, adaptações, que resultaram em 350 milhões de cópias vendidas e textos traduzidos em mais de 40 países. Só para não dizer que não citei algumas das mais populares, seguem O iluminado; Carey, a estranha, A espera de um Milagre e Um sonho de liberdade; todas, facilmente, na lembrança dos leitores, sobretudo pelas adaptações ao cinema.

Fica, então, a questão: escrever é prazer? Trabalho e profissão? Talvez, uma porção de loucura? Superação do medo de eternizar opiniões, histórias e pensamentos? Coragem de deixar fluir sentimentos? É risco? Lazer ou fuga da realidade? Aprendizado ou treino? Pra mim, é um pouco disso tudo. E, em alguns momentos, nada disso. Por agora, mais um desafio. Foi dessa forma que recebi o convite da Dani, mentora e administradora desse espaço, para ser uma das sete mulheres desse site, com todo prazer e pavor que estar aqui poderia suscitar.

Algumas leituras e acontecimentos me acalmaram nos últimos dias. Vi, recentemente, que durante a Festa Literária de Paraty – Flip, que entre autores convidados a aconselhar pessoas que desejavam escrever – ou seja, iniciantes, Daniel Galera, afirmou: “Não esqueça que não há evidência nenhuma de que alguém esteja minimamente interessado no que você tem a dizer”. A frase realmente me encorajou, pois reforçou a tão prezada liberdade de dizer o que quero ou dizer quase nada, acerca de qualquer tema. Dá aquela sensação de leveza, ainda que não totalmente sustentável. Até mesmo a autora mais rica da história da literatura, a britânica J. K. Rowling, que assina a série Harry Potter, e vendeu mais de um bilhão de exemplares, dados de 2011, de acordo com a Wikipédia, abordou a questão da liberdade de escrever sem expectativas, ao assumir o pseudônimo de Robert Galbraith no seu mais novo livro. “…foi uma experiência libertadora”, disse a autora ao jornal Telegraph. “Foi maravilhoso publicar sem expectativa, e por puro prazer para obter uma resposta com um nome diferente”, acrescentou.

Com certeza, a liberdade deve ser infinitamente mais cara para quem faz tanto sucesso; e pode, a qualquer momento, ter que encarar um fiasco ou fracasso. Para mim, o que está em jogo não é nada disso, somente o prazer.

É por isso que, ao dirigir-me a todos, sei que não me dirijo a ninguém. Ao escrever, coloco na rede somente aquilo que não mais se cala em mim. É dessa forma que ocuparei esse espaço. O prazer venceu o pavor.

E aproveitando, ainda, o vácuo da Flip, um aviso aos leitores. Não pude aplicar o conselho de Edney Silvestre, dono do Prêmio Jabuti de Literatura, em 2010, com o livro Se eu fechar os olhos agora. Ele sugeriu: “Escreva. Edite. Escreva. Edite. Escreva de novo. E deixe repousar por um par de meses. Aí veja se é preciso começar tudo de novo.” Este primeiro texto saiu mesmo sem edição, sem releitura, sem repouso, sem muita definição, na noite desta terça-feira.

E para me aproximar do ponto final, pego outra carona na recomendação do americano John Jeremiah Sullivan, autor de ‘Pulphead’ que, também durante a Flip, disse: “Não pare. Mas se você parar, não se sinta um fracasso. Você talvez tenha escapado de um destino difícil. Mas não pare”.

Esse será meu compromisso nas próximas quintas. Aproveito para dar boas-vindas às mulheres que compartilharão o mesmo desafio e agradeço a inclusão neste clube. Boa sorte Lúcia, Taiana, Raquel, Acir e, especialmente, Daniella, valeu a oportunidade! Luciana, Acir, parabéns pela estreia.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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