Elegia ao óbvio

-Abre a porta.

– Sai daí! Eu não quero mais olhar na sua cara. – menos pior, ele pensou. Pelo menos falar ele ainda estava podendo.

– Por favor, meu bem, abre a porta.

– Por favor, meu bem, some da frente da porta. – ela disse, corrosiva.

– Entenda só, nós precisamos conversar de fato sobre o que aconteceu e…

– Não tem por quê! – ela esganiçou – Eu já perdi as contas de quantas vezes já conversamos sobre isso.

– Benzinho…

– Você sabe que já falamos sobre isso tudo antes. – ela disse, exasperada e nitidamente muito chateada. Ele não teve dúvidas: já tinha acontecido mesmo. – E eu só estou muito cansada para ter essa conversa agora.

– Mas não é melhor esclarecer isso agora, sabe?

– O que é que eu preciso falar de novo que não disse todas as outras vezes?

– É que, talvez, se eu ouvir de novo ou de outra forma, eu…

– Não, não. Eu finalmente entendi. Você nunca vai mudar ou entender por que isso me incomoda.

– Não! – ele disse, preocupado com o rumo da conversa. Era muito amor para se jogar fora assim, sem qualquer tentativa de compreensão. – Eu sou capaz, sim! Eu vou entender, te juro. Olha, abre essa porta… a gente tem que conversar direito.

– Mais? De novo? Sobre a mesma coisa?

– Eu não… – ele começou exaltado e depois baixou o tom de voz. – Não é assim que se resolve as coisas. Você olha no olho, fala o que sente e a gente discute maneiras de resolver a situação.

– E quantas vezes eu já disse? Você é que não me escuta, querido… – e as reticências fizeram aquele barulhão, como se a respiração dela fosse acabando num sopro sofrido. Já tinha acontecido outras vezes, mesmo.

– Não é justo ficar aí, no seu pedestal, me julgando sem sequer me dar chance de entender o que aconteceu.

– Se você não entendeu até agora algo tão claro, não vai entender nunca.

– Eu amo você.

– Não ama. Quem ama não fica fazendo deliberadamente as coisas que você faz.

– Eu não vou embora sem olhar para você e ter uma conversa decente.

– O que você quer? Ouvir tudo de novo?

– Eu preciso entender.

– Mas eu já expliquei!

– Hoje?

– Não, das outras vezes!

– Mas eu preciso ouvir hoje.

– Mas continua sendo a mesma coisa.

– Eu só…

– Nada nunca muda, este é exatamente o ponto. Eu não aguento falar mais a mesma coisa de novo e de novo e de novo…

– Eu só…

– Me deixa ir, por favor. Só dessa vez, você precisa enxergar as coisas por si só.

Os passos foram caminhando decididamente até ficarem surdos.

– Eu amo você. Isso não deveria ser o mais importante? – os passos continuavam surdos.

E ele foi embora, sem saber o que tinha feito de errado.

Se ela pudesse ao menos ter explicado outra vez…

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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