Ela é o cara

Ana não é dessas mulheres que gostam de receber flores, que esperam ouvir “eu te amo” para se envolverem fisicamente com alguém, tampouco dessas mulheres que se emocionam com qualquer comédia romântica e que apreciam bebidas leves e doces. De doce tem apenas o cheiro que fica ainda mais enjoativo depois de uns cigarros. Não fuma sempre, apenas depois de uns drinks.

Até bem pouco tempo atrás, sua rotina não fugia do trivial. Quase sempre perdia a hora e geralmente acordava de ressaca. Depois de passar o dia de pijama adiando coisas inadiáveis e vendo qualquer superficialidade na TV enquanto fazia as unhas, comia o que seu estômago aceitasse, tomava um banho e ia pra faculdade. Não era a melhor aluna da sala porque não era disciplinada e simplesmente porque já não via mais finalidade naquele curso. Continuava enquanto outra perspectiva mais interessante não lhe surgia.

Depois da aula, passava no bar para conversar com os amigos e tomar uma cerveja.  Conhecia quase todos ali e, a quem era apresentada, causava espanto pelo jeito sincero e desinibido com que conversava sobre sexo, homens, futebol e o que fosse. Falava francamente sobre suas experiências, sobre suas curiosidades, dúvidas e medos, até a hora em que tivesse que sair “pra mijar”.

Quando algum carinha interessante se aproximava, não fazia charme. Achava todo esse teatro enfadonho e desnecessário. Sabia que provavelmente nunca mais se veriam, que ele não ligaria e que não havia nenhuma outra intenção que não fosse carnal. Para que mais farsas? Ficava, então, quando queria, transava quando queria e ia embora quando queria. Não reprimia seus desejos quando havia o interesse, simples assim.

“Os homens se assustam com você”, “você precisa ser mais mulherzinha”, “você vai acabar sozinha se continuar assim”, eram comentários sempre recorrentes. De fato, não foram poucas as vezes em que, entre lágrimas, se sentiu só. Pensava e logo em seguida lavava o rosto como se assim lavasse sua mente de pensamentos como esse. No dia seguinte, olhos inchados, um sorriso dolorido e o bom dia para uma vida que, embora por vezes a cansasse, ainda a entusiasmava.

Ana que poderia ser Maria, Patrícia, Carolina, Paula… Ana, que frequentemente era vista com estranheza por suas atitudes pouco femininas, que não tinha a postura delicada de Maria, que não bebia moderadamente como Patrícia, que não chorava com comédias românticas como Carolina, que não fazia charme com os homens como Paula, mas que, como todas elas, queria ter alguém que a acordasse com beijos, tinha sonhos, queria novas descobertas, se descobrir e ver mais sentido em sua própria vida.

Afinal, o que nos faz mulher não é o modo como nos portamos, o modo como falamos, o modo como flertamos ou choramos facilmente. O que nos faz mulher é o modo como nos tornamos donas de nós mesmas, o modo como encaramos nossas vidas e assumimos o que somos. Ou, como disse minha amiga Ciça, ser mulher “é escolher o que você quer e, simplesmente, fazer”.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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