Donos da Bola?!

A vida é um jogo ou uma sucessão de partidas, mas nem todos nós estamos prontos para entrar em campo e, muitas vezes, o relógio corre, a partida passa, o primeiro tempo parece não durar 15 minutos; o segundo, então, você não vê. Na maioria das vezes, a disputa não tem prorrogação; e quando você menos espera, o resultado está ali, agrade ou não.

Tem gente que se prepara mais, acumula experiências e faz cada jogada. Tem gente que nem precisa de treino, parece nascer pronto.Tem gente que corre pra lá e pra cá e não marca gols – mesmo com talento, falta a sorte. Pra mim, uma das maiores comprovações dessa máxima foi a seleção de Telê Santana, na Copa de 1982. Aquela velha história que a vitória nem sempre está destinada ao melhor. É claro que isso não é regra.

Tem gente que está sempre lá na frente e não brilha, tem todas as chances e oportunidades. Tem gente que vem de trás e dá show. Tem gente que se arrasta em campo. Tem gente que deixa o campo antes da hora. Tem gente que fica no banco, assistindo ao jogo passar. Tem gente que reclama do placar. Tem gente que faz o placar. Tem gente que merece o vermelho. Tem gente que nem merece ser escalado. Boa parte vence, boa parte perde, tem horas que há empate. Mas um jogo é só um jogo, e o que vale mesmo é o campeonato. Aquela hora que a gente soma os pontos e vê se está na frente ou na rabeira. A hora de colocar a mão na taça.

Nesta semana, um episódio me induziu a falar sobre jogar, sobre viver. Uma equipe de pequenos garotos na Espanha, apresentada num programa esportivo dominical, que aprendeu a se deliciar com o futebol, e ainda mais com a vida, virou notícia porque nunca tinha vencido nenhuma partida que disputara. E olha que as derrotas acumuladas eram de placares elásticos: 10, 20 e até 27 a zero para os diversos adversários. Um vexame para qualquer mortal. Será mesmo? A vida prova o contrário. No olhar de cada menino ali, nenhuma tristeza; só sorrisos e todo apoio do técnico e dos pais. Cena inimaginável até mesmo quando pais e mães acompanham os filhos numa brincadeira. A lei é vencer sempre. Estar na frente na escola, na pelada, na escolinha de futebol, ser o primeiro no vestibular; ainda que a posição seja justificada pelas frustrações alheias à criança, pelo desejo de mudança de vida jogado sobre os ombros dos pequenos, pela responsabilização de gente que só deveria jogar brincando, tendo que jogar pra viver ou viver jogando, ou ainda jogar como gente grande. E aqui não se tratam de crianças que apostam sua vida só no futebol, mas em qualquer carreira. Quantos jovens não são médicos porque os pais incentivaram com a velha pressão? Quantas meninas não são lançadas à miss mirim, ao sonho das passarelas, às capas de revistas, à busca de parceiros que possam garantir um futuro melhor para suas famílias, sem a menor vocação para esse estrelato? Sobra crueldade. Haja frustração, que vai gerar mais frustração.

É, o futebol e a vida têm muito em comum.  Toda essa gente parece não ser dona do seu passe. Toda essa gente mesmo contundida precisa jogar no sacrifício. Toda essa gente com troféus nas mãos não é vitoriosa. Sorri pra foto, mas depois vai chorar no vestiário.

Poucos aprendem mesmo a jogar de verdade, pra rir ou chorar na vitória e sofrer ou gargalhar na derrota, só quando isso vale a pena. Como no refrão de Elis: “Vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar.”

É isso aí, bola pra frente, vamos recomeçar esse jogo. E que cada um possa ser realmente dono da (sua) bola. Essa conquista vale muito, vale demais!

 

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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