Dois atos de amor

Dois atos de amor 1

Quando eu tinha dezesseis anos, me apaixonei perdidamente por um rapaz de vinte e dois anos que trabalhava  na antiga Cia. Paulista de Força e Luz, onde meu pai trabalhava. Lembro-me até hoje quando o conheci. Meu pai estava de folga e ele foi falar com meu pai sobre o trabalho na subestação onde meu pai trabalhava, ele era um técnico em eletrotécnica da Companhia.

Quando ele saiu da camionete verde da CPFL e sorriu para mim, perguntou pelo meu pai, eu soube que o amaria para o resto da vida. Ele era alto, loiro, tinha os olhos verdes que brilhavam quando  falava dos seus planos, tinha o cabelo no estilo da Família Dó, Ré, Mi (corte popular da época) e fazia umas covinhas lindas quando sorria. Foi um namorico de uns três meses, mas para mim parecia a vida inteira. As coisas não deram certo, eu era jovem demais para entender de amor.

Quando terminou, eu quase morri, chorava muito, minhas notas caíram no Colégio. Meu pai que tinha fama de feiticeiro, sempre que ficávamos doentes, ele nos curava com suas rezas. Eu acreditava piamente  nos poderes do meu pai. Então meu pai não suportando mais me ver sofrer tanto, me disse:- Se você quiser eu o trago de volta para você, não é para ser, mas eu o trago de volta. Eu respondi que assim, eu não o queria porque eu o amava demais para prendê-lo a mim com um feitiço.

Sofri minha dor por mais de um ano, joguei fora fotografias, bilhetes, tudo que me fazia lembrar dele. Mais tarde me arrependi, pois não tenho nenhuma foto dele, e hoje, quarenta anos depois,  só vejo o seu rosto nas imagens da minha memória.

Quando saíamos juntos e sentávamos numa lanchonete, na hora de fazer o pedido, ele sorria para mim e dizia ao garçom: – Para ela, um suco natural de laranja, para mim, um guaraná Antártica!

Eu gostaria de encontrá-lo novamente, sentar com ele numa lanchonete, saber se ele se lembra que eu ainda prefiro meu suco de laranja, natural, se ele ainda tem covinhas ao sorrir, se continua com o mesmo brilhos nos olhos . E principalmente, eu gostaria de dizer-lhe que o amei tanto que o libertei, que o deixei ir.

Deixá-lo ir foi a coisa mais dolorosa que já fiz, mas foi um ato do mais puro amor que se pode sentir por alguém. Eu gostaria que ele soubesse disso.

Se meu pai tinha ou não, o poder de trazê-lo de volta para mim, eu nunca saberei. Mas hoje, quando penso nisso, vejo um ato de amor de um pai que faria tudo para ver sua filha feliz.

 

 

Acir Montanhaur

Sobre Acir Montanhaur

Faço do mundo a minha morada, conhecendo lugares nunca vistos. Conheço a mim mesma me vendo em outros rostos, em outras culturas. O meu encontro e encanto com outros mundos é o encontro e encanto com uma parte adormecida e inexplorada em mim, que anseia pelo desconhecido.

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