Diz que…

Diz que lá pras bandas do sul do estado vive um senhor de nome Teobaldo, o maior comedor da cidade, como era conhecido. No auge dos seus 68 anos, Teobaldo já havia saído com quase todas as mulheres da cidade, e os homens nunca entendiam o que o velho tinha ou fazia pra conquistar com tanta facilidade a mulherada. Teobaldo era de poucos amigos, não pagava jantares, presentes, nem fazia questão de ser gentil com ninguém. De certo seus hábitos saudáveis (corria todos os dias) e os músculos difíceis de se conquistar nessa idade chamavam atenção, ou era na cama que surpreendia e, assim, sua fama se espalhou.

Foram muitas as que se deitaram em sua cama, em muitas camas se deitou, mas nunca em camas de mulheres de sua idade. Mais velhas que ele, então, apenas nos idos de seus 20 e poucos anos. Depois disso, nunca fora visto com mulheres acima dos 35. Suas primeiras conquistas são mães agora de suas novas aventuras, poucas as que escaparam de suas mãos. Dentre elas Lurdinha, mãe de sua nova conquista, Márcia. Moça retraída, dessas bem corolas, Lurdinha casou-se cedo e nunca nem se interessou pelas histórias que envolviam Teobaldo, até descobrir que sua filha andava se engraçando com o safado. Ora, onde já se viu uma moça de 20 anos envolvida com o velho mais tarado e falado da cidade?

De imediato, tratou logo de cortar as asas da menina, permitindo-a sair apenas para o curso de enfermagem. Viúva, não poderia tolerar que a vida que programou para sua filha fosse corrompida por um velho abusado. Márcia se formaria, noivaria e se casaria com Antônio, filho de sua amiga que estudava direito em outra cidade. Esse sim era moço bom para sua filha. Claro que este não era o sonho de Márcia. Enquanto sua mãe fazia planos e orações, a moça dava seus pulos e trocava aulas por festas e encontros casuais, até que conheceu Teobaldo. Por um tempo deu pulos certeiros, mas por buchichos que se espalham fácil de bocas solitárias e vazias como em toda cidade pequena, Lurdinha descobriu as espertezas da filha e decidiu resolver o caso com o velho imediatamente.

Postura firme e rugas que denunciavam seu espírito pouco amigável, assim Lurdinha chegou à porta de Teobaldo. Bateu uma, bateu duas, até que o velho abriu a porta com um ar de indiferença que a irritou ainda mais. “Olha, o senhor não tem vergonha na cara, não?? Onde já se viu, se envolver com meninas tão novas pra sua idade, se envolver com minha filha, uma moça…”. Antes que pudesse concluir o raciocínio, Teobaldo já havia lhe dado as costas e partido em direção aos cômodos do fundo. “Ora, e ainda me deixa falando sozinha…”. Agora é que não ia deixar por menos. Não tardou em segui-lo sem pedir licença e resolver aquela história de uma vez por todas.

Ao chegar na cozinha, Teobaldo ofereceu-lhe uma cadeira e terminou de passar o café. Mas que sentar que nada, Lurdinha queria era enchê-lo de verdades. Continuou seu sermão, até que Teobaldo virou-se, pegou-a pelo braço e a fez sentar na cadeira. Já ele se encostou na porta que dava para o quintal e, enquanto bebia seu café, escutava pacientemente o que aquela mulher tinha a lhe dizer.

Já não tão à vontade e sem entender muito bem a postura de Teobaldo, Lurdinha continuou seu discurso e disse tudo que tinha planejado dizer, mas a cada palavra, a imagem daquele velho prostrado à sua frente perturbava seu raciocínio, até que finalmente se calou, se rendeu àquela figura e ao que ele iria dizer em sua própria defesa.

Depois do último gole, Teobaldo se aproximou de Lurdinha, puxou seus cabelos e beijou sua nuca. Nunca Lurdinha havia sentido arrepio parecido e, ainda calada, fechou seus olhos e deixou que o velho continuasse sua fala. Teobaldo, conhecido por não se envolver com mulheres acima dos 35, resolveu finalmente se pronunciar no corpo daquela mulher tão atrevida, tão cheia de razão, tão cheia de rugas e de carne. Resolveram o caso ali mesmo, naquela cozinha cheirando a café passado. E ali, no colo daquele velho, Lurdinha finalmente provou prazeres e tremores nunca antes sentidos. Saiu de lá ainda trêmula, sem dizer qualquer palavra, sem tocar mais no assunto, sem mais fazer planos ou orações para sua filha, já enrabichada com outro rapaz. E diz que Teobaldo, o maior comedor da cidade, continuou a contar sua história nos corpos não só das filhas, mas também das mães e tias, alimentando novos buchichos nas bocas solitárias e vazias daquela cidade.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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