Diálogo 30% imaginário



“É aqui o ponto do ônibus que vai pra rodoviária?”, perguntou o senhor que com muito custo se sentou ao meu lado. Cabelos despenteados, a camisa aberta até a metade do peito e, nas mãos, um doce de padaria. “É sim”. “Viu, fia, eles fizeram esse muro pra proteger da enchente. Sabe que, quando chove, isso aqui tudo fica cheio d’água. Tá vendo aquele bar ali? Não se vê nada quando chove. Eles sabem das coisa…”, continuou o senhor dos olhos tristes, enquanto os que estavam por perto se afastavam. “Fia, ô fia, não é fácil não, fia. Muié é um bicho ruim. Eu amo aquela muié, fia, mas ela me largou”. “É mesmo?”. “É, é complicado, né? Nóis tava junto há mais de 40 anos e aí ela me largou por causa daquele sem vergonha lá. Ela põe a culpa na pinga, fia, mas ela é vagabunda, me traiu com aquele filho da mãe… E ela que queria ficar comigo quando nóis era moço, sabia? Queria fugir e tudo, só que ela era muito menina quando quis juntar com eu e eu disse que só depois que ela fizesse 18. Naquela época era normal juntar cedo assim, sabe? mas eu não achava certo. Ela era uma criança e eu já tinha 25 anos na época. Aí, quando ela fez 18, eu fui na casa dela, pedi a mão dela pros pais dela, pra fazer tudo nos conforme, sabe? Aí nós juntamo, tivemo filho, uma par de neto já, e agora ela tá lá com aquele vagabundo… E eu fiz de tudo pra essa muié, fia, trabalhei em tudo quanto é roça pra não faltar nada pra ela nem pros nossos filho, e agora ela tá aí que não quer nem mais olhar na minha cara. Inté bater em mim ela já me bateu. Eu sei que eu já fiz muita coisa errada, mas bater em muié eu nunca bati. Ah, isso não. Pode perguntar pra qualquer um, fia. Já falei coisa que não devia, fiz coisa que não devia, mas bater em muié eu nunca bati, não. Agora, se elas bate em nóis, fica tudo por isso mesmo, né? E eu amo aquela muié, fia, mas ela não quer mais saber de mim. Me pôs pra fora e botou aquele sem vergonha pra dentro de casa e me largou. Mas sabe o que é pior, fia? O pior é que eu amo aquela vagabunda. Eu amo, fia… E se ela quisesse juntar com eu de novo, eu juntava, mas ela não quer mais saber de mim… Muié é tudo ingrata, fia, tudo ingrata…”, concluiu o senhor com o olhar mareado e fixo no chão. Ficamos os dois pensativos e em silêncio, como dois amigos sentados em uma mesa de bar a prosear entre umas e outras, até que meu ônibus chegou. “Tchau, fia, vai com Deus, fia”. “Tchau, o senhor também”, disse-lhe ao subir os degraus. Os outros passageiros que seguiam atrás de mim riram como se eu fosse uma grande tola por dar trela àquele triste senhor. Da janela, já não pude mais vê-lo e sabia que nunca mais o veria. De lá, segui refletindo sobre sua história, sobre perdão, sobre ingratidão e sobre esses encontros inesperados que a vida bondosamente nos oferta.

 

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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