Depilação: A tortura moderna

Depilação: A tortura moderna 1

Ontem eu estava a conversando com uma amiga sobre depilação. Ela é uma adepta ferrenha. Eu vivi cinquenta anos sem depilar minhas partes íntimas, mas sempre sendo pressionada pelas minhas amigas, primas, até minha mãe se depilava e eu não sabia. Não adiantava eu dizer que eu tinha uma boa relação com os meus pelos e que o meu ginecologista havia dito que deveria ter uma boa razão para os pelos estarem lá.  Mas minhas amigas e primas ficavam horrorizadas, me diziam que era anti-higiênico, feio e tudo mais. Eu já estava me sentindo a única patinha peluda do planeta!

Então no ano que eu fiz cinquenta anos resolvi colocar a depilação na lista de “coisas para fazer antes de partir”, sim, eu tenho uma lista dessas. Me indicaram a Vanessa Depilação e lá fui eu. Minha experiência mais traumática, precisei morder a calcinha para não gritar, me senti uma mulher da idade média sendo torturada sob a acusação de bruxaria. A depiladora disse que era falta de costume que depois da segunda ou terceira vez eu iria me acostumar. Não vou me acostumar nunca! Nunca mais voltei. Mulher inventa cada coisa pra sofrer!

Encontrei na internet um texto de autoria desconhecida que diz exatamente como me senti.

Virilha Cavada: Tenta sim! Vai ficar uma beleza!!

Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu iria me sentir dez quilos mais leve!! Disseram que meu namorado iria amar!! Eu imaginava que iria doer, porque elas ao menos  me avisaram. E encarei o desafio.

– Oi, queria marcar uma depilação com a Penélope.

– Vai depilar o quê?

– Virilha.

– Normal ou cavada?

(Espera aí! Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada?! Mas já que era pra fazer, quis fazer direito)

– Cavada mesmo.

Chegou o dia em que perderia dez quilos!

Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba! Vou ficar que nem ela, legal!

Saímos da sala de espera e entrei num longo corredor.

De um lado a parede e, do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, suspiros, conversas, sussurros…. Senti um frio na barriga sem ainda abrir um único botão!!

Chegamos ao nosso cantinho: uma maca cercada de cortinas.

– Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca.

Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha onde estavam os aparelhos de tortura: uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça… De repente, ela vem com um barbante na mão e amarrou bem forte as laterais da calcinha.

– Quer bem cavada?

– É… Quero sim.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail!!

– Os pelos estão altos demais. Vou cortar um pouco, senão vai doer muito.

– Ah, sim, claro.

(Claro, nada! Não entendia porra nenhuma do que ela fazia! Mas confiei!)

De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e soltando fumaça.

– Pode abrir as pernas.

– Assim?

– Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.

– Arreganhada né?! (Ela riu… Que situação!)

E, então, Penélope passou a primeira camada de cera quente na minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.

Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele do meu corpo tinha saído. Que apenas minha ossada tinha sobrado na maca.

Não tive coragem de olhar.

Achei que havia sangue jorrando até o teto.

Procurei minha bolsa com os olhos cogitando a possibilidade de chamar o serviço de resgate.

Tudo isso buscando me concentrar, para fingir que era tudo suuuupernatural.

Quando me notou roxa, Penélope perguntou se estava tudo bem.

Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo que doesse mais.

– Tudo ótimo. E você?

O processo medieval continuou. A cada puxada, eu tinha vontade de espancar Penélope, tirar o sangue dela.

Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer.

Todas recomendam, porque se cansam de sofrer sozinhas.

– Quer que tire dos lábios?

– Não, eu quero só virilha; bigode, não!

– Não, lindinha, não estou falando do seu buço! Os lábios dela (apontando para a minha Abigail), aqui, ó!

Não, não, para tudo! Depilar os tais grandes lábios? Putz, que idéia!

Mas topei. Quem está na maca, tem mais é que se fuder mesmo!

Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.

– Olha, tá ficando linda essa depilação!

– Menina, mas tá cheio de encravado aqui! Olha de perto!

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas, completamente debruçadas sobre a sofrida Abigail.

Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. “Me leva daqui, Deus, me teletransporta!” Só voltei à terra quando, entre uns blábláblás, ouvi a palavra pinça.

– Vou dar uma pinçada aqui, porque ficaram uns pelinhos, tá?

– Pode pinçar, está tudo dormente mesmo, tô sentindo nada!

Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça fi-lha-da-pu-ta arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la, arrancar-lhe os olhos. Porém, mal sabia eu que o motivo para isso ainda estava por vir.

– Vamos ficar de lado agora?

– Heeeeeeeeiin??????????

– Deitar de lado, pra fazer a parte cavada.

Pior não podia ficar. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.

– Segura sua bunda aqui!

– Heeeeeeiiin?????? Como assim????

– Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda!

Tive vontade de chorar.

Eu não podia ver o que Penélope via.

Mas ela estava de cara para ele, o olho do cú!!!!!!!!!!

Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Neeeem minha ginecologista!

Quis chorar, gritar, peidar na cara dela.

Mas, de repente, fui novamente trazida para a realidade.

Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu Twin Peaks.

Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação.

Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu, entre tantos?

E aí me veio o pensamento: “Peraí, tem cabelo lá??!!”

Fui impedida de desfiar o questionamento.

Penélope puxou a cera.

Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só ela arrancou toda e qualquer coisa que existisse ali.

Com certeza, não havia mais nem uma preguinha pra contar a história!

Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces … !!!!!!!

– Vira agora do outro lado.

Caralho!!!? Por que a cadela não arrancou tudo de uma vez só? Virei e, completamente humilhada, segurei a outra “bandinha”. Nesse exato momento, a bruaca da salinha ao lado abre a cortina novamente.

– Penélope, me empresta um chumaço de algodão?

Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos.

Ninguém ia ver o meu cu tão de perto daquele jeito! Só mesmo Penélope.

E, agora, a vizinha inconveniente.

– Terminamos! Pode virar que vou passar a maquininha.

– Máquina de quê?!

– Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.

– Dói?

– Dói nada!

– Tá, passa essa merda logo!

– Baixa a calcinha, por favor.

Foram dois segundos de choque extremo.

Baixe a calcinha?! Como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho????!!!!!!

Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cú!!

O que seria baixar a calcinha?

– Prontinha! Posso passar um talquinho?

– Pode. Deixa a bicha grisalha!

– Tá linda! Pode namorar muito, agora!

Namorar?… Namorar?! Eu estava com sede de vingança! Queria virar feminista, morrer peluda, protestar, fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada. Queria comprar o domínio preserveasbucetaspeludas.com.br. Queria tudo, menos namorar.

Acho que, se um dia eu voltar lá, vai ser pra dar na cara dela!!

Acir, a viajante

Sobre Acir, a viajante

Faço do mundo a minha morada, conhecendo lugares nunca vistos. Conheço a mim mesma me vendo em outros rostos, em outras culturas. O meu encontro e encanto com outros mundos é o encontro e encanto com uma parte adormecida e inexplorada em mim, que anseia pelo desconhecido.

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