De passagem

A cada parada, o velho ônibus seguia carregado de novas histórias. Entre freadas, empurrões e cotoveladas, todos seguiam com olhares e pensamentos distantes. Um motorista apressado em concluir sua última volta antes do almoço; um cobrador sonolento, de braços cruzados e cabeça baixa. A cada freada brusca ou cutucada de um passageiro, olhos arregalados de susto. Ao redor, personagens desconhecidos que ali, naquele velho ônibus, pareciam iguais. O mesmo suor, o mesmo cansaço, a disputa pelo banco vazio ou por um lugar próximo à porta.

Logo à frente, uma mãe exausta cochilava após mais uma noite mal dormida. Ao chegar em casa no final do dia, teria ainda que fazer a janta, olhar a lição do menino e recolher as roupas do varal antes de descansar. Ao lado, uma moça distraída com seu celular e um menino curioso fitava o decote da jovem ao seu lado. Cabelos penteados, uniforme limpo e, na mochila gasta, o conhecimento que seria desprezado após o encontro com os amigos e a primeira conversa do dia. Do outro lado, uma enfermeira falava aos berros ao celular, um casal de namorados que ria da cena e uma jovem que aproveitava a viagem para comer um lanche antes de chegar na faculdade.

Havia ainda um bebê sorridente capaz de fazer sorrir o mais mal humorado dos passageiros. Seus olhinhos atentos queriam captar cada detalhe daquele universo. No banco ao lado, um jovem de cabeça baixa apoiado sobre as mãos cruzadas. Parecia orar por um emprego, por um amor, por uma nova vida. Ou dormia, apenas.

Dos passageiros sentados logo atrás, a conversa que embalava o trajeto: “Eu sou de lá do Norte e tô aqui faz 5 anos. Ah, eu gosto muito daqui, viu. Eu sinto muita saudade da minha mãe, mas eu já tô com a vida caminhada aqui. Tô casado, com um bom emprego, pra lá eu não volto mais não”. “O ônibus atrasou, né? Justo hoje que eu tenho curso… Ai, menina, é duro trabalhar e estudar, mas depois de tudo o que eu passei com o meu ex-marido… Ele me maltratou muito, sabe? Bebia muito, me batia, não me deixava sair de casa pra nada… Graças a Deus eu me livrei dele e tô realizando o meu sonho que é fazer esse curso!”. “E aí, vamo no funk amanhã?”. “Não, mano, amanhã é feriado santo. Vamo no sábado”. “Fala, filha. Não cheguei ainda, não. O que foi? Ele conseguiu? Que benção! Faz assim, fala pra ele passar lá em casa e pegar um terno meu. Ele não vai arrumar emprego nenhum vestido daquele jeito”.

Entra, então, um senhor que vagarosamente sobe os degraus. Cada degrau lhe exigia em esforço comovente. Quando finalmente alcançou a primeira barra, a senhora que antes cochilava cai em sono profundo, a moça do celular encosta na janela e observa atentamente  a movimentação da rua, assim como o menino, a moça do lanche, a enfermeira, o casal de namorados…

Nova parada, novos passageiros, personagens que se cruzam e que se vão. Bancos vazios à espera de uma nova história a ser contada.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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