De madrinha para afilhado

Para quando você crescer…

Querido afilhado,

Hoje faz um ano e seis meses que você veio ao mundo, mas parece que você já está aqui há tanto tempo, parece que te conheço há tanto tempo. Esse sorriso largo, essa covinha encantadora, essa timidez e esse olhar doce sempre estiveram aqui. Estavam no gênio forte de sua mãe, na teimosia de seu pai, no carisma do seu tio, na força de sua avó, na sinceridade de sua bisa. Você estava aqui o tempo todo e, aos poucos, dando pistas de sua vinda.

Hoje, sinto não poder estar por perto para acompanhar seu crescimento. Não vi quando seu primeiro dentinho nasceu, quando você engatinhou pela primeira vez, nem quando balbuciou suas primeiras palavras e deu seus primeiros passos, e eu sinto muito por isso. Sinto porque serão muitos os momentos que eu perderei. Embora nos vejamos com certa frequência, nem sempre eu poderei estar aí quando você fizer mais alguma coisa pela primeira vez. Talvez eu não esteja aí quando cair seu primeiro dente, quando for o seu primeiro dia de aula, quando se apaixonar pela primeira vez e ficar cheio de dúvidas em relação ao seu corpo e aos seus sentimentos.

Na vida, serão muitas as “primeiras vezes” com as quais você terá que lidar. Enfrentar muitas delas não será fácil, posso te garantir. Nada na vida me parece fácil, querido. Há coisas que nem a maturidade é capaz de nos responder e sempre haverá mais perguntas que respostas, saiba disso. Você ficará inquieto por não entender o porquê de muita coisa e eu peço que tenha amor a essas perguntas, como disse certa vez um poeta. Um dia seremos capazes de amar as respostas, mas nunca se desespere por isso ou tenha qualquer temor.

A vida nada mais é, afinal, do que isso: viver perguntas até o dia em que sejamos capazes de viver as respostas. Quando esse dia chegar, tenho certeza de que muito do gênio forte e teimoso que se desenha em sua personalidade será mais leve. Seja, portanto, atento a tudo aquilo que o desequilibrar e respeite tudo o que a vida lhe impuser, sem medo nem ansiedade.

Quando dúvidas surgirem, saiba que não é por vontade própria que eu não estarei por perto, um dia você entenderá, mas eu sempre estarei aqui para te ouvir me chamar de “a Dinda”, para te ver correr atrás de mim pela casa novamente, para saber de todas as suas “primeiras vezes”, para te aconselhar e te orientar quando for capaz, para dar os devidos puxões de orelha, quando necessário, e para te dar todo o amor que uma madrinha é capaz de dar. Sim, porque com você eu aprendi o que é ser capaz de amar uma pessoa antes mesmo de conhecê-la e a me sentir responsável por alguém. Esse amor de madrinha, meu querido, é só seu. E o dia em que eu for mãe e puder sentir algo tão puro quanto o que eu sinto por você, creio que será, então, o dia em que eu finalmente serei capaz de amar as respostas.

Com carinho,

A Dinda

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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