Das traças

Tinha essa traça na parede e sabia que ela saía de dentro do guarda roupa.

Não tinha roupas de seda e pelo, e bem da verdade nos últimos bons tempos só as roupas das liquidações de fim de ano, mas ela era um verme e eu deveria odiá-la por existir e por me afanar qualquer coisa.

Porque uma traça significa uma praga insolente, um mínimo serzinho que devagar come as roupas, bichinho maldito. Mas aquela traça na parede pulsava tanto, teria ela coração?

Lembrou-se vagamente de uma aula de biologia, sem contudo conseguir classificar a traça, mas achou que deveria ter sistema nervoso, mas não sangue. Mas pulsava com vigor, com força, à desdém de seu olhar de censura, de toda sua fúria e mesmo de seu chinelo empunhado, disposto a matar e decretar seu último pulso.

Mas e as bolinhas de naftalina?

Será que estavam vencidas ou só combatiam baratas? Aí lembrou-se do dia em que ameaçou o pai dizendo que engoliria naftalinas se não deixasse ir naquele baile que ele nunca deixava ir.

Mas não foi ao baile nem engoliu nada e no dia seguinte o pai deu uma bicicleta para ver se ela tirava a cara emburrada. E quando fazia essas cenas e tomava essa iniciativas, sentia que apesar do olharzinho de ridículo do seu irmão, pulsava de vida.

Diferente agora, quando essa traça mal amada na parede tentando sobreviver parecia pulsar mais vida do que ela. Agora andava assim olhando paredes, limpando cantos, catando malditas traças e tentando salvar umas roupas molambentas. Que vida agora.

E depois riu-se, porque acabava de pensar em sua vida olhando uma maldita traça na parede que queria levar suas roupas e engolir suas coisas, sobreviver às suas custas e resistir à suas poderosas naftalinas. Riu-se, até sentar no chão e olhar a traça por baixo.

Onde será a cabeça dela?

E onde eu estou com a cabeça? Lembrou-se também do dia em que deitou no chão de rir depois de apanhar do pai por pular a janela do castigo. Riu de um jeito maquiavélico e assustou às irmãs mais novas. Onde estaria agora aquela pessoa tão pulsante?

Perguntou-se e decidiu por deixar a traça livre, sem podar a vida de uma pobre e minúscula traça e achou que deveria chinelar outras traças maiores que estariam a viver de suas custas e comer sua vida aos poucos.

Ellien Saccaro

Sobre Ellien Saccaro

Jornalista que gosta de boas histórias, boa comida, boa companhia e vê a vida de uma forma mal humorada,mas positiva. "Me acompanhem com filosofias de vida, crônicas do cotidiano, problemas femininos e uma pitada de polêmica."

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