Dá para parar com essa trama?

Confesso, sem vergonha, que em minha casa, assim como na casa da maioria dos brasileiros, as novelas acabam entrando na rotina. Não são todas, mas somos na essência noveleiros. A frequência que nos dedicamos a esses folhetins é muito maior do que o necessário ou do que gostaríamos. Daí vem a confirmação: parece que falta alguma coisa quando falta a novela.

Percebo que, de tempos em tempos, alguma trama precisa ser incorporada no nosso cotidiano – e, quando menos se espera, você tá lá de frente da tela, como um fiel seguidor, num ato quase religioso mesmo. É claro que hoje com a internet e a lista interminável de séries disponibilizadas, a concorrência existe e as novelas já perderam sim, um público considerável, mas ainda está na preferência de muita gente. Mas, o que tem me chamado atenção no momento não é essa constatação tão ululante. É a a insistência na fórmula impressa nas telenovelas, que tem se superado na subestimação do público.

Em toda a trama, o inferno é viver num bairro de classe média ou alta. Paraíso é estar nas favelas. É como se o morro nos aproximasse dos céu. Violência não há ali.  Nas chamadas comunidades, existe amizade verdadeira. Todo mundo cuida de todo mundo – no bom sentido, é claro. Ter grana é a pior coisa da existência. Pobre nunca tem problema e se tiver, no final será recompensado. Rico é sempre infeliz, louco ou doente, quando não chifrudo. Todo mundo que mora numa mansão sonha com um barraco. E quem tá num barraco não quer sair dali, nem se a mudança for para o Palácio de Buckingham. Olha que eu não quero nem fazer a apologia do maniqueísmo, tão presente em cada personagem.

Mas muitos vão dizer: serve para acalmar as massas e hipnotizar até quem pensa que pensa. É só levar na brincadeira! Só que tem hora que não dá. Como dizia Shakespeare, há muitas coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.

Novela é entretenimento, vão dizer muitos. Não passa de obra de ficção. Concordo! Mas será que esse produto não poderia ser um pouquinho menos pretensioso e desdenhar menos da sanidade de todos, o tempo todo? Pode parar!

Essa composição de caracteres e construção de estórias é tão cansativa que, por si, já deveria nos fazer desistir. Então, porque não desistimos?

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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