Cotas para negros – qual a conta a pagar?

Novembro, tempo de vestibulares e Zumbi dos Palmares. A rima é meu tema dessa semana. Em pauta os programas de cotas nas universidades brasileiras. Uma amiga, a quem muito prezo, afirmou no facebook, por esses dias, que: quem é contra as cotas para negros e alunos das escolas públicas precisa voltar à escola para estudar história e mudar de opinião. A afirmação tem muita verdade, mas há muito mais distância entre o céu e a terra… quando se pensa a questão.

Que bom que fosse simples assim, boa parte da segregação pudesse ser apagada do território no momento em que todos os preconceituosos se apropriassem da história, por meio da  educação. Mas não é! Ainda que ela possa minimizar, só a educação não pode execrar a discriminação.  Basta pensarmos quanto a elite tem de conhecimento e educação e mesmo assim esbanja preconceito.

O preconceito é um sentimento muito maior, muito mais complexo, tipicamente atrasado, porém  não tem só a ver com o conhecimento,  mas com uma síndrome de superioridade, falta de alteridade, visão de mundo bem apertada mesmo para aqueles que chegaram tão longe;  apropriação do conteúdo histórico com distorção e tendenciosidade – o que ofusca e impede a compreensão do que realmente é garantir chances e oportunidades com equidade para todos.

A conta a pagar com as cotas é uma dívida enorme – que não pode mais esperar para ser saldada. Um débito de séculos. Todos temos ciência de quanto os  negros sustentaram esse país com o trabalho escravo e foram praticamente os últimos no planeta a serem declarados livres. Afirmo declarados, pois  – na prática – se livraram da senzala e ficaram presos à favela. Aquela velha história da distância entre o papel e a realidade, de novo.

 A grande maioria da população favelada é negra, a maioria dos pobres é negra, a maioria daqueles que não tem acesso à educação é negra, aquele que não chegam a cursar o ensino superior são em grande parte negros.  E depois querem discutir se as cotas devem ser sociais ou raciais – é o mesmo que chover no molhado. Se negros são pobres e pobres são negros, qual o X da questão? Ah… existem  também brancos pobres – então, que se faça justiça a eles também.

Tem gente que argumenta que nossas autoridades deveriam melhorar a escolha pública ao invés de implantar medidas paliativas como as cotas. É claro que essa é uma exigência de qualquer país que queira se tornar uma nação. A pergunta que não se cala neste caso é quanto tempo mais será necessário para que isso aconteça? Um século ou dois?

Vira e mexe, vimos esforços de ONGs e até mesmo de algumas autoridades para estabelecer metas para a melhoria da educação nas escolas públicas – mas mesmo essa ousadia está colada demais no discurso.   “Toda criança na escola até xx anos, todo aluno até tal série compreendendo os conteúdos repassados etc.” Todas essas metas têm sim sua importância. Esse trabalho não é inválido. Afinal, só a motivação, só a vontade, mesmo que seja de poucos, pode levar à transformação ainda que tardia. No entanto, exigir que os negros que passaram , séculos esperando justiça esperem mais,  é exigir o impossível. Acreditar que negros esperem que a educação pública seja transformada na oitava maravilha do mundo pel os nossos governantes para que eles possam concorrer com as mesmas condições com brancos que estudam nos melhores colégios é o mesmo que dizer: esperem sentados por mais alguns séculos.

Só essa justificativa histórica – já seria o bastante para que medidas imediatas como as cotas fossem justificadas,mas é preciso comentar mais.

O que dizer de uma competição na qual os concorrentes têm preparo diferenciado, estruturas familiares distintas, acesso aos bens materiais de forma totalmente diferente, disputando as mesmas vagas? Fica bem claro quem sempre estará à frente. E o mesmo que colocar Usain Bolt e eu na disputa dos 100 metros. O vexame será enorme.

Há aqueles que dizem que por estarem em defasagem, por serem oriundos da escola pública, não adianta um empurrão com as cotas; pois os negros vivenciam dificuldades enormes para acompanhar os seus pares nos bancos da universidade. É mais um discurso tosco daqueles que acreditam que um vestibular pode definir um bom profissional e esquecem que é dever da educação promover essa equalização entre os universitários.

E só para finalizar e frisar como último argumento e principal . O que há de justo e correto na aplicação de uma prova para cidadãos tão diferentes. Um com inúmeros obstáculos a transpor, outro com a pista livre para chegar? Essas perguntas realmente devem ser colocadas.

Se só a possibilidade de garantir o acesso do negro ao ensino superior, com um percentual de vagas limitado, por meio das cotas, causa ainda hoje reações raivosas, como afirmar que não existe preconceito no Brasil. Parece mesmo uma piada, de muito mal gosto – acrescente-se.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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