Corra, Lola. Corra

Desceu as escadas correndo, quase pulando degraus, mãos em punho fechado – como fazem os lutadores de boxe quando levantam a guarda – tentando manter o equilíbrio.  Conhecia bem aquele corredor estreito, cuja única fonte de luz vinha da porta ao final dele. Podia ouvir sua própria respiração curta e rápida, no mesmo ritmo que os joelhos ditavam ao se erguerem e baixarem, enquanto dava ordem ao cérebro para prestar atenção aos degraus.

As pernas pareciam bambas, mas não pela fadiga muscular e, sim, porque já antecipavam o que iria encontrar em poucos segundos, que demoravam mais que uma eternidade. A boca seca de sede e de medo, aberta para que o ar entrasse e saísse, fazendo com que bufasse com força. Pulou alguns degraus, passou a mão pelo corrimão, bateu o ombro de leve na parede. Cada vez ficava mais descoordenada, rápida e ofegante.

Passou com tudo pela porta e quase trombou não sabia com quem, afinal nem olhou. Não havia tempo, nem para desvios, nem para que suas pupilas se contraíssem ao sair da escuridão e entrar na claridade da rua. O capuz na cabeça já estava metade afofado atrás, cabelos presos de qualquer jeito numa mistura de rabo de cavalo e coque, fios soltos incomodando o pescoço.

Desejou que as pessoas andassem mais rápido, enquanto fazia zigue-zague entre elas, e se lembrava, inevitavelmente, das aulas em que tinha que correr da mesma forma entre outros alunos. Começou a dar valor para aqueles minutos de aquecimento em que não “aprendia nada”. Correndo, desviando-se e tentando arregaçar as mangas do moletom, nos poucos segundos perdida em pensamentos, quase tropeçou num desnível da calçada. Perto do semáforo na quadra do prédio, aberto para os carros, teve que esperar pulando no lugar e balançando as mãos como se pegassem fogo, pensando: “Vai logo, vai, vai, vai”.Corra, Lola. Corra 1

Com a pequena pausa forçada viu o quanto estava exausta e também o carro parado no local combinado. Puxou o ar e correu para a outra calçada sem saber o que esperar. Colocou a mão no bolso direito da calça, que saiu trêmula segurando um documento. A voz em pausas, corpo inclinado para a frente, tentando recuperar o fôlego.

_ Oi, sou eu, tá aqui meu RG – disse olhando para baixo, uma mão no joelho e a outra com o braço estendido, assoprando o ar com força.

_ Ainda bem que você veio, moça, não tem lugar para estacionar na frente do seu prédio, que rua movimentada. Assina aqui – replicou o homem de uniforme, esticando uma prancheta com a caneta presa por um barbante e devolvendo o documento dela.

Pegou a caixa, agradeceu e se sentou no meio fio da calçada. Olhou para ela por alguns instantes, coração na boca. Podia não ter corrido tanto já que iria chegar e, em vez de abrir, contemplar o papelão, talvez você pense. Mas, quem nunca correu, batalhou, insistiu e, ao ter o que queria nas mãos, ficou hesitante, com medo?

Uma mistura de “será que finalmente acabou” com “será que eu vou ter que fazer tudo de novo”, esperança e desespero, tomaram conta de sua mente ao fitar aquela caixa. Puxou o adesivo bem devagar, rasgando um pouco o papel e seus ouvidos, com aquele barulho incômodo e respiração um pouco mais profunda. Ao desdobrar as abas, ainda sentada, focou bem os olhos. Manuais de boas práticas, legislação do novo ambiente, cartão com palavras como apta, parabéns e honra. Chorou e riu, olhando o azul do céu.

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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