Como explicar a fé? Ou melhor, tentar explicá-la…

O que pode ser a fé? Para alguns, puro fanatismo, loucura, justificativa para violência, pra mortes – de preferência, muitas, “em nome de Alá, de Maomé, de Deus, em nome do Pai.” Pra outros, apenas fuga. Tem quem aposte no conforto. Há aqueles que colocam nela toda a sua esperança. Outros a taxam como alienação. Mas vale uma pausa sobre aqueles que tentaram entendê-la. Da minha parte, de forma superficial e brevíssima.

Para Weber, “…o homem sempre esteve à procura de sentido e de significado para a sua existência. Procura-se na religião signos de transcendência e de esperança.”

Religião é o ópio do povo para Marx. Uma ilusão, para Freud.

Nietzsche defende que há uma incompatibilidade entre a vida e Deus; entre Deus e a liberdade humana. “Se Deus existe o homem não pode ser livre, mas se o homem é livre, Deus não existe.”

Espinosa a define como superstição e esclarece. “A superstição é uma paixão negativa nascida da imaginação que, impotente para compreender as leis necessárias do universo, oscila entre o medo dos males e a esperança dos bens. Dessa oscilação, a imaginação forja a ideia de uma Natureza caprichosa, dentro da qual o homem é um joguete. Em seguida, essa concepção é projetada num ser supremo e todo-poderoso, que existiria fora do mundo e o controlaria segundo seu capricho: Deus.”

Cientistas afirmam e reafirmam: a fé não é nada que se comprove.

Há aqueles que a traduzem como meio ou fim para se promover, para acumular; Tem gente que faz dela motivo para amar, para doar, para ser solidário. Outros para matar ou morrer. A fé também pode ser trampolim. Ela pode ser o melhor e o pior que há em nós.

Para mim, a fé me sustenta, me fortalece, me anima. É, sim, meu escape, minhas respostas quando não as tenho ou não as encontro. Meu porto alegre e seguro. Absurdo para alguns, um alívio… para muitos. Falo, aqui, em fé não como tradução da religião – em que se pese toda a dificuldade de separar as duas temáticas – se isso for possível. Até mesmo em conceituações ou definições, as palavras são colocadas como sinônimos. Além de um conjunto de crenças e doutrina, religião sempre terá um aspecto público; que eu acredito que a fé não necessita.

Mas, por quê falar em fé? A minha intenção não é convencer ou converter ninguém, pois cada um é único e sabe o que o preenche. Acho insuportável qualquer ideia de vendar ou impor minha religião a qualquer outro. E olha, que minha religião preconiza: “Ide e pregai o evangelho a toda criatura.” Não acredito que tenhamos esse poder. Conheço pessoas que não tem religião nenhuma e são excepcionais. Conheço fervorosos, cheios de erros. Eu caibo, me encaixo e sou profundamente feliz na minha  religião, com todas as críticas, discordâncias e reflexões sobre como nós, homens, a conduzimos: cheios de falhas – pecados – de retrocessos, ora com avanços, ora com estagnação. Muitas vezes, sem o compromisso de levá-la ao pé da letra – e nem acho que isso seja falha. Afinal, se Jesus sempre falou por parábolas, em linguagem metafórica, o campo de entendimento é muito mais amplo que podemos imaginar – a essência é o que importa. Para mim, a Bíblia é um livro aberto, aberto à pluralidade de interpretações, e que deve respeitar as especificidades dos tempos. Há inúmeras passagens que renderiam debates desgastantes, que não levariam a uma única conclusão, a uma única certeza e verdade. Acredito, entretanto, que tudo se resume numa só questão: amar o outro. Amar ao próximo como a si mesmo.

Escrevo isso porque vou reler neste momento: “Em que creem, aqueles que não creem”, de Humberto Eco e Carlo Maria Martini; e também porque após contato mais profundo com a história e obra de Carl Sagan, me chamou atenção e me impôs profunda reflexão o tema.

Sagan afirmava que a ideia de um criador do Universo era difícil de provar ou refutar. Sua última esposa, Ann Druyan, afirmou em depoimento, que ele era um descrente, e comentou, após sua morte:

Quando meu marido morreu, porque ele era tão famoso e conhecido por não ser um crente, muitas pessoas vieram a mim – ainda acontece às vezes – me perguntar se Carl havia mudado no final e se convertido a uma crença na vida após a morte. Também me perguntam, frequentemente, se eu acho que vou vê-lo novamente. Carl enfrentou a morte com coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões. A tragédia foi que sabíamos que nunca iríamos nos ver outra vez. Eu não espero estar com Carl novamente.

Mas em tempo de finalizar, vou abusar de Gil:

Certo ou errado até

a fé vai onde quer que eu vá
Ô-ô , a pé ou de avião .
Mesmo a quem não tem fé,
a fé costuma acompanhar
Ô-ô , pelo sim, pelo não…

Andá com fé eu vou
que a fé não costuma faiá.
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá

Para aqueles que tiveram a mesma sensação de inconclusão que eu, é isso mesmo. Não concluo, porque está longe desta questão ter fim, ser esgotada; e, não pode – nem deve – ser reduzida a algumas linhas.

 Prometo uma volta ao tema, em breve.  Até a próxima quinta.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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