Casamentofobia

Esta semana que passou teve o Dia dos Namorados. E eu – permitam um momento de pieguice -, ganhei flores do meu namorado na escola em que trabalho. Passado o quase infarto e controlada a emoção, o interessante foi observar as reações.

As alunas suspiravam de forma doce e adolescente, com um romantismo difícil de esconder e os rapazes, mais contidos, se esconderam atrás de uma sacadinha engraçada do tipo “Ah lá, já tem o buquê e pode concorrer ao Miss Universo”. No fim, houve um diálogo que eu gostaria de colocar aqui.

 

– Ai, Cecília que lindo! Casa com ele! (uma menina, é claro)

– Ué, é meu namorado. A intenção é essa mesmo. (não me recrimine, eu disse que seria um pouco piegas!)

– Tá louca? Você é muito nova pra casar! Vai acabar sua vida muito cedo (um menino, exaltadíssimo)

Não é engraçado como é perpetuado nas gerações atuais um medo colossal de casar? Acho que se fizéssemos um experimento psicolinguístico de relação lexical, as primeiras palavras altamente associadas com casamento seriam “prisão”, “tédio”, “infidelidade” e variantes. Decerto que a união perdeu sua credibilidade nas últimas épocas, mas o que me preocupa é o rótulo. Não gosto de ver que relacionamentos também já estão estereotipados e muito menos consigo me controlar quando ouço pessoas comentando “Ah, ela tem 23 anos e já está casada.” como se fosse um tipo de sentença de morte. Mais irônico ainda é que tenha havido tanta luta por um divórcio sem preconceitos e justo para que, ainda assim, o casamento seja visto como um tipo de prisão perpétua. A hipocrisia social já atingiu esta instituição também.

Não estou defendendo a felicidade através do casamento, até por que muitos não dão certo e muitas pessoas são felizes sozinhas, sem se casar – e eu acredito que cada um deve buscar o que te faz feliz, sempre. Mas acho que essa corrente que vem vindo criando milhões de pré-requisitos para escolher se casar (só depois dos trinta, de 5 anos de relacionamento, se tiver morado junto e dado certo e viajado o mundo todo atrás dos seus sonhos…) não está oferecendo a libertação de uma prisão, mas sim criando uma outra: você só se casa se for maluco.

Não é uma fobia bem estranha para uma geração tão carente de carinho e atenção genuínos? Se pretendemos que haja, de fato, uma reflexão sobre o valor e pertinência de qualquer instituição social (casamento, família, etc.) precisamos, antes de tudo, garantir a liberdade para que todos aconteçam no ritmo e da forma que os indivíduos envolvidos desejem.

Ora, a moça quer se casar aos 18 anos? Como impedi-la, não é? Deixe que ela tente e, quiçá, aprenda através do erro  ou seja enormemente feliz com seu amor adolescente para o resto da vida. O rapaz namora cinco meses e quer se casar? Idem. Não quer se casar nunca? Quer morar junto para sempre? Quer casar depois dos 45? Idem, idem, idem!

Afinal, como saber o que é felicidade e o que não é sem experimentar cada chance dela que aparecer?

 

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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