Cadê o “off”?

Já escrevi aqui sobre o passar do tempo. Hoje, o que me angustia é a falta dele. Mesmo sem um emprego formal, nós mulheres conseguimos: vamos ao mercado, à farmácia, ao varejão, cuidamos dos filhos – mesmo sem tê-los, adotamos os sobrinhos; fazemos uma pós, e, aí, o carro está à menos de um quilômetro de uma pane seca, exige um pulinho ao posto de gasolina. Temos que pagar os empregados, cuidar de toda a papelada, impostos, correr ao banco, chamar a assistência técnica porque mais um eletrodoméstico pifou; se dedicar a algumas leituras obrigatórias; nunca pode ser uma só. E, ainda, distribuir carinho, atenção e sorrisos.

 E de repente, vem aquela lista do que ficou pra trás – quase tudo que não era tão exigência assim, nada que deixaria alguém morrer de fome, mas pode matar de tédio e angústia. O jornal que não foi aberto, porque não deu tempo. Cuidar da saúde, porque não deu. A corrida diária, quase vira semanal. Ter um momento de ócio é quase impossível, pois nos intervalos o telefone toca e a lista aumenta: desmarcar fisioterapeuta, remarcar uma consulta, ligar para uma amiga aniversariante, limpar as gavetas, tirar o lixo do o AP, dar uma carona para um amigo, ufa!!!! E você lembra que esqueceu um almoço com outra – é preciso fazer mais uma chamada para se desculpar.

Gerenciar o dia é coisa mesmo pra gente grande, mas sempre acho que os pequenos, muitas vezes, fazem melhor. Afinal, a prioridade deles é a diversão e depois vem o resto.  A gente cresce e desaprende. Aprender a dizer não, acho que ajuda muito, mas tem tanta coisa que parece mesmo imperativa, que nem dá tempo de pensar no não.

O pior dessa correria é que, ao final do dia, fica aquela sensação de que nada foi feito, nada de prazeroso, nada de crescimento, nada de descanso; ainda que a lista tenha coisa de cinco atividades, a cada meia hora. Quando um outro trabalho ou tarefa chega, a gente acaba, no automático, realizando também. E não consegue a apertar aquele botãozinho: desliga! Apesar de desempregada não consigo encontrá-lo. Na minha vida, parece que não ele não existe. Só hoje percebo o quanto isso é desgastante e só pode trazer vazio. Nos últimos tempos, quando mais poderia desfrutar do tempo, tenho me autosabotado. Até para preparar uma viagem, o período que antecede tem que ser um turbilhão, para compensar aquele espaço mínimo de lazer.

Se você se identifica com tudo isso, lamento muito – muito mesmo. E quero  deixar claro que esse clube não deve aumentar, e, sim ser esvaziado. A correria não dá espaço à criatividade, não permite a gente viver o melhor da vida, não dá tempo para rir. Agora, o que fazer para rasgar essa carteirinha não é tarefa simples não. Botar esse sentimento no papel pode ajudar, pois exige uma nova postura. Quem sabe daqui a alguns dias, eu estarei escrevendo pra vocês sobre o prazer de não fazer nada. Ah, ócio tão desejado!

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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