Essa afinidade é papel ou é parede?

Você já deve ter visto pessoas que parecem não ter nada em comum formarem amizades de anos a fio, casais opostos que não se desgrudam, parcerias profissionais entre polaridades distintas que dão tão certo e deixam o resto do mundo sem entender como. Outros, que sempre ouviam ter “tudo a ver”, um relacionamento perfeito para quem está de fora, mas que se separam e deixam todos em choque. Aparentemente, os primeiros teriam tudo para não se darem bem, mas se entendem. Enquanto os segundos, tudo para terem uma afinidade perfeita, mas não conseguem conviver. A questão está justamente nesta palavrinha um pouco mais acima: aparentemente.

Foto: Reprodução/ www.instagram.com/bob_marley_goldenretriever/

Foto: Reprodução Instagram – bob_marley_goldenretriever

Tudo o que aparenta é verdadeiro? O que é aparente, afinal? A velha imagem da pontinha do iceberg, tão utilizada para definir a personalidade de uma pessoa, o que ela conhece de si mesma e o que está em seu subconsciente, pode ajudar aqui também. Se o que é possível ser visto fora da água é um pedacinho, e o resto do iceberg que não se enxerga é enorme, vemos que o que está aparente neste caso só representa uma parte, bem pequena, aliás, do todo. Sobre as partes que compartilhamos com as pessoas, acontece a mesma coisa. Existe o que se mostra nas interações sociais. Existe o que se é nas estruturas mais profundas de nossa personalidade.

Papel de parede é lindo, só não se sustenta sozinho

Às vezes parece que, para avaliarmos um relacionamento como perfeito, seja ele amoroso, de amizade ou até familiar, a ideia dessa perfeição viria da unidade. Em que uma pessoa se identificaria com a outra completamente, onde as coincidências mostrariam como aquelas almas foram “feitas uma para a outra”, para fazerem juntos tudo aquilo o que mais gostam.

Em um primeiro momento, quando este tipo de afinidade ocorre, a sensação é realmente maravilhosa e tudo parece perfeito. Até começarem a surgir situações em que a afinidade em outros níveis também é testada. Discute-se aqui o modo de pensar a vida, valores importantes, questões que envolvem caráter, ou simplesmente objetivos que caminham para lados opostos.

Por exemplo, se algo que é abominável para um é normal para o outro e isso faz com que eles ajam de formas diferentes no relacionamento, ferindo princípios de pelo menos um dos envolvidos, vemos que a afinidade era apenas superficial. Era pontinha que podíamos ver do iceberg.

Por outro lado, se pequenos gostos não são compartilhados, mas valores morais – ou pelo menos muitos daqueles considerados realmente importantes para cada um – são as bases da conduta e forma de pensar dessas pessoas, a afinidade ocorre em um nível muito mais consistente. Por isso mesmo não é qualquer desavença aparente que abala essa amizade, amor e outros laços. Mesmo que, conscientemente, nem saibamos ao certo os motivos de gostarmos tanto daquela pessoa.

Nosso cérebro é rápido e busca informações passadas para avaliar o presente. Temos uma tendência, explicada histórica e neurologicamente, de fazer julgamentos de pessoas e situações conforme o que já vivemos, vimos ou sentimos. Conforme o que se apresenta parece ser. Não há problema nisso. O problema é parar por aí. Porque ou a decepção, ou a perda de laços que poderiam ser bons, é certa.

Claro que ter afinidades nas esferas visíveis e mais facilmente perceptíveis é um grande ganho para uma relação. Mas, elas são mais acessório que base, mais item de decoração do que estrutura de uma casa. Em escala de importância, primeiro os pilares, a afinidade do caráter. Segundo, as demais características. Não vamos fechar os olhos e julgar que as pessoas têm tudo ou nada “a ver”. Vamos com calma, dando tempo ao mar para mostrar como é o iceberg naquela parte toda que a gente não vê. No fundo, nossa intuição costuma nos avisar bem antes de qualquer mergulho.

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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