A primeira vez

Estava na 5ª série quando roubou pela primeira vez. As balas ao lado do caixa pareceram alvos fáceis após a distração da atendente. Saiu de lá como quem já sabia se portar em situações como essa: discrição, passos suaves e a mão cheia de balas e de orgulho pelo feito. Comeu todas na rua para que a mãe não desconfiasse. Não tardou em roubar chocolates, biscoitos, presilhas, brincos, batons. Quando um dia a mãe reparou nos objetos diferentes em casa, disse que os ganhara de uma amiga que não os queria mais.

Na escola, tudo era tentador: as folhas de fichário da amiga, a caneta colorida, o estojo cheio de compartimentos e até uma simples lapiseira. Olhava para o  material que ganhara da escola e não pensava em outra coisa senão em usar o da colega. Dito e feito. Tudo era escondido e usado dias depois que o sumiço caia no esquecimento.

Foi na escola também que roubou seu primeiro objeto de valor, um celular. Sua mãe com muito custo dava aos filhos o que comer, sabia que dela não ganharia nem um aparelho de segunda mão. Aproveitou enquanto todos saíam distraídos para o intervalo e o escondeu dentro da calça. Correu para o banheiro a fim de desligá-lo e se deu conta de que só o celular não bastaria. Astuta, passou a roubar o dinheiro que os colegas levavam para o lanche também, e com ele comprava roupas, saía e se arrumava. Começou a ir em festas, churrascos e a encontrar os colegas em uma praça após a aula. Lá, fumou seu primeiro cigarro e bebeu pela primeira vez. Aos poucos foi se soltando, e não recusou o dinheiro de um dos garotos para que se deitasse com ele. Com ele e com outros, agora não precisava mais roubar para conseguir o dinheiro de que precisava.

Os cochichos foram se espalhando e as ofertas aumentando. Já nem ligava mais para as lapiseiras, estojos, celulares e dinheiro dos colegas. Estava mais interessada nos garotos que a procuravam e lhe faziam ofertas com as quais lucrava muito mais. Às vezes recebia em dinheiro, às vezes em drogas. Em casa, pouco aparecia. A mãe que chegava sempre tarde do serviço mal notava as travessuras da filha mais velha que tanto estudava na casa da amiga. Menos um filho com que se preocupar naquele dia.

Nas aulas ia apenas pela merenda e pelos contatos que fazia. No mais escutava música, mexia em seu celular ou em qualquer outra coisa que não fosse em seu caderno. Os professores falavam em equação, renascimento, fotossíntese… Entendia bem apenas a subtração, a divisão, o hiato… Se nem sua vida estava em concordância, por que entender a verbal e a nominal? Não fazia questão de entender, de pensar, de mudar. Nada a apetecia. Que a vida continuasse assim, sem ilusões, sem máscaras, sem encantamento. Seu único sonho era namorar o traficante do bairro, ser mulher de um cliente só. O resto era piada, mentira, conversa, lorota, papo furado, conversa pra boi dormir. E disso? Ah, disso ela já estava calejada há muito tempo.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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