A necessidade do sentir

Autoestima, autenticidade, respeito, amor próprio. O que verdadeiramente é importante para a composição dos sentimentos humanos? “A primeira vez que me cortei foi com um caco de lâmpada que joguei no chão. Desde então não consegui parar. Já usei faca, vidro, bisturi, lápis, caneta, tesoura e tudo que é pontiagudo. Quando não acho nada uso até caneta de ponta fina na hora da raiva”, conta *Carlos, 18 anos. Filho de família de classe média alta, o jovem revela que apesar da boa casa, família, educação e amigos ao seu redor, sente-se infeliz em seu mundo. “ Sempre que tô depressivo, me corto. Finjo para minha família que está tudo bem, mas na verdade qualquer coisa vira motivo para fazer tudo novamente e me cortando me sinto mais aliviado descarregando  a dor em mim mesmo”, afirma.

A automutilação, também conhecida como cutting, é uma prática que cada vez mais chama a atenção de pais, educadores e médicos em geral, isso porque, estudos revelam que esse tipo de “enfrentamento de vida” é alvo principalmente  do jovem. Muitas vezes rotulados de loucos por amigos e familiares, grande parte das pessoas aderentes ao cutting, são portadoras do denominado Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL), que se caracteriza por uma instabilidade do humor, comportamento e relacionamentos interpessoais, ações que muitas vezes podem confundir, com atitudes típicas da maioria dos adolescentes. “Os indivíduos que realizam tal ato, não encontram alternativas para sobrepor as suas dores. Elas envergonham-se e refugiam-se cada vez mais nessas atitudes, pois, sentem-se excluídas do mundo normal e não conseguem pedir ajuda para o alivio de suas angústias afetivas”, explica Adriana Camargo, psicóloga e pesquisadora de causas depressivas da Universidade do Mato Grosso do Sul.

Os instrumentos usados para essa prática são os mais diversos. Vão desde lâminas de barbear, tesouras, canivetes, cacos de vidro e na falta, até, cartões magnéticos. Os locais afetados no corpo são: pulsos, braços, pescoço, coxas, pernas e até face, seios e abdômen também são cortados.

Pesquisas Recentes
Estudos apontam que grande parte dos indivíduos com TPL, relata histórias de violência, negligência ou separação quando crianças. Só vítimas de violência sexual são cerca de 40 a 71% dos pacientes com TPL. E a automutilação muitas vezes se torna uma espécie de refúgio para esses traumas. Forma-se um ciclo vicioso e o sujeito quando mutilado sente de imediato um alívio por possuir o domínio da sua própria dor, mas, logo volta ao seu estado de ansiedade exacerbada, raiva de si mesmo e dos outros ao seu redor. São essas séries de eventos que terminam por desencadear o aparecimento do transtorno.

Freud, fundador da psicanálise em “O mal-estar na civilização (1930)”, lembra que o sofrimento pode abordar as pessoas nas mais diversas direções. E que o sofrimento proveniente da relação com os outros é ainda mais penoso, pois ele vem como complemento a nossos dramas de existência. Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) mostra que embora não tão conhecido quanto à esquizofrenia ou o transtorno bipolar (doença maníaco-depressiva), por exemplo, o TPL é um dos transtornos mais comuns, e afeta cerca de 2% da população brasileira, principalmente os jovens.

No entanto, é preciso cuidado ao questionar alguém que pratica a automutilação. Nem sempre quem o exerce, é detentor do TPL. Às vezes a prática está relacionada apenas a uma fase de vida quando o jovem está vulnerável a experimentações e curiosidades, por exemplo. É o caso de Fernando, 26, que já experimentou a automutilação. “Quandoeu  tinha uns 16 anos escutava muito rock pesado com minha turma. Na época, tinha alguns amigos que se cortavam e isso despertou minha curiosidade. Certo dia num momento de raiva, comecei a fazer rabiscos cada vez mais fortes em meu pulso, até sangrar. Foi aí que parei e me perguntei: o que estou fazendo ferindo a mim mesmo? Então caí na real e nunca mais ousei pensar nessa história” afirma.

São comuns em algumas bandas e cantores que seguem a linha Death metal, (estilo musical que aborda desde temas referentes a satanismo e guerras, até assassinatos, suicídios e carnificinas) o culto a cortes que ferem seus corpos em shows, apresentações e clipes musicais. Esse tipo de atitude, também pode influenciar para que o número de jovens adeptos da automutilação aumente sem que necessariamente o adolescente seja portador do TPL. “São jovens que estão no mundo para experimentar novas idéias, principalmente as vindas de seus ídolos. A tendência é refletir em suas atitudes ou comportamentos, práticas que nem sempre advém deles mesmo o que, dependendo da situação, ocasiona a continuação ou a perda de vontade de tais ações”, explica a psicóloga Adriana Camargo.

Para quem percebe nos amigos a prática da automutilação, vale o alerta para buscarem ajuda seja de psicólogos e outros profissionais da area. O exercício constante do cutting, pode gerar conseqüências irreparáveis na pele, podendo inclusive levar a morte , em caso de cortes em artérias vitais. “Há 10 meses luto contra a automutilação e estou conseguindo. Aprendi que coisas ruins fazem parte de nossas vidas como às coisas boas também. Devemos transformar pensamentos maléficos em pensamentos positivos e construtivos. É difícil, mas é preciso tentar, lutar e se esforçar. No meu caso, a ajuda dos psicólogos foi muito importante. Eles me fizeram pôr em prática tudo aquilo que já sabia, mas que por fraqueza tinha deixado de acreditar em alguém muito importante: eu mesma”, conclui Marcela de 17 anos, ex-adepta do cutting.

* Para preservar a identidade das fontes, os nomes dos entrevistados foram modificados

Daniella, a intensa

Sobre Daniella, a intensa

Para viver preciso acreditar nos sentimentos mais profundos que a alma humana pode oferecer. O infinito para mim é bastante atraente e o "meio termo" praticamente não existe. Tenho uma alma intensa, carismática, dramática. E é com toda essa intensidade que procuro dar o meu melhor como mãe, esposa, filha, irmã, amiga, jornalista, poetisa!

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