A distância entre o céu e o inferno

Inspirada na reação da presidente Dilma sobre a fuga do senador boliviano, Pinto Molina, da Embaixada do Brasil em La Paz pra terras tupiniquins, com o apoio do diplomata Eduardo Saboia e o acirramento do imbróglio diplomático, que resultou na derrocada de Patriota pra terra do Tio Sam – aquela velha história do cair pra cima – dedico meu espaço, desta semana, ao tema.

E olha que escolher um tema para o “Faces Femininas” desta quinta não foi tarefa nada fácil.  A semana foi mesmo repleta daquilo que nós, jornalistas, chamamos de Teoria do Agendamento (“Agenda Setting”), cuja premissa pode ser expressa na frase de Bernard Cohen: “Na maior parte do tempo, a imprensa pode não ter êxito em dizer aos leitores como pensar, mas é espantosamente exitosa em dizer aos leitores sobre o que pensar”. E, aqui, quero acrescentar sobre o que dizer. Hoje, afirmamos, tranquilamente, que a imprensa não só pauta, mas forma nossas opiniões. Tudo depende do quanto temos – ou não – de informações complementares para compreender os fatos, para entender as notícias.

Então, vamos a eles, os fatos: reações muito aquém do mundo no pós-massacre e extermínio de crianças na Síria; quase nenhuma reação no caso da retenção/prisão arbitrária pelo governo britânico do brasileiro David Miranda, que vive junto com o jornalista britânico que divulgou as denúncias de Eduward Snowden, ex-Cia, contra a bisbilhotagem americana sobre o mundo, incluindo o Brasil (outra confusão diplomática); reações tresloucadas, destemperadas e grosseiras da classe médica aos colegas que chegaram para integrar o “Mais Médicos”, com desfile de um vergonhoso racismo – num país que insiste em vender a imagem que aqui não tem preconceito;  e a coincidência do tema racial se repetir na agenda mundial com as comemorações dos 50 anos do discurso de Martin Luther King, lembrando a Marcha sobre o Washington, em 1963,  nesta quarta passada. Naquela ocasião, mais de 250 mil pessoas ouviram o histórico discurso “Eu tenho um sonho”.  Depois de tudo isso, eu, aqui, me dedico a falar sobre a distância entre o céu e o inferno.

Quem de nós já não experimentou esse percurso ou já pisou neste território? Não foi só quem sofreu tortura. Destaco que respeito, me solidarizo, reconheço que esse deve ser um dos piores pesadelos e, com certeza, uma das piores páginas de vergonha da nossa história.  Mas o céu cai sobre nossas cabeças e nos empurra ao inferno quando sentimos amarrados, paralisados, sem perspectivas, derrotados, desempregados, sem saúde, frente a uma perda; simplesmente, sem-respostas. Vejo essa similaridade, sim, no caso do diplomata. É preciso considerar que ninguém – em sã consciência – compraria uma briga com dois governos, dois presidentes, com seus superiores para conquistar os seus cinco minutos de fama ou celebridade. Quero ressaltar que aprovo o Governo Dilma, mas não acho que tudo que sai errado é orquestrado pela oposição. Simplesmente, encontro muitos acertos e alguns erros no ato de governar.

A distância entre o céu e o inferno pode ser a de um instante, a de um flash, como o daquela mãe que comemorou frente às câmeras, na terça-feira, a sobrevivência do filho no desmoronamento de uma futura loja em São Paulo; e já imaginando um brinde à vida; na sequência, foi avisada de sua morte – de novo, a velha (atual) Agenda Setting.

O percurso para o inferno pode ser o estopim de um tiro no portão de casa, um sequestro relâmpago, uma enfermidade, uma luta perdida para uma doença, uma derrota nas quadras, nos campos, uma espera para atendimento no SUS. O que não dizer de uma espera de mais de 450 dias para uma tomada de posição? Pra tudo há limites. Basta que saibamos praticar a alteridade – essa capacidade de se colocar no lugar do outro, que não é lá coisa pra qualquer ser comum.

 Dilma, sim, me inspirou a escrever esse texto, mas o dedico, com todo orgulho, ao diplomata Saboia. É preciso reconhecer gente que toma posição, cansa de empurrar com a barriga e coloca a sua cara a tapa, sua carreira e vida em risco, mas não abre mão daquilo que acredita. Ainda, existe gente assim, pra sorte do planeta.

Não importa o lugar, se o DOI-CODI ou a Embaixada. Vivemos, sim, num mundo assombrado pelos demônios, que podem ser os outros ou a nossa própria consciência – e que bom que ela pode nos incomodar, nos impulsionar, nos levar à ação, mesmo frente à paralisia do mundo.  E já que usei um título de Carl Sagan, para encerrar, complemento que é preciso luz em toda essa escuridão, mesmo porque o pesadelo não acabou. Tomara que não se torne um episódio ainda mais horripilante ao se reduzir ao embate eleitoral, com o governo e a oposição disputando microfones para ver quem ganha ou perde mais. A disputa não pode ser pela melhor frase de efeito. É bom que, desta vez, a presidente esteja alerta, acorde logo e resolva a questão. Para nós que a elegemos, pior – do que dar asilo e se indispor com o vizinho; ou não dar, e temer a oposição – é enrolar pra tomar decisões. Seja qual for a conta a pagar agora, ela vai ser muito mais cara. Esse é o preço por escolher o caminho da indefinição, isso, também, é um inferno.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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