27

Fazer aniversário e me lembrar do medo que tinha de chegar aos 27. Tantos são os que receiam chegar aos 70 ou 80 anos por medo da solidão que os anos podem trazer, medo do desamparo ou dos arrependimentos que se poderá carregar. Estes medos nunca me pertenceram. Quando pequena, temia chegar aos 27 e morrer jovem, como muitos de meus ídolos, sem ter tido a chance de entender melhor a vida e realizar tudo aquilo que matutava em minha cabeça desde pequena. E hoje acordei com a recordação desses pensamentos.

Lembrei-me da menina envergonhada, sonhadora e cheia de imaginação que queria ser arquiteta, professora, secretária, astrônoma, fonoaudióloga, roteirista, presidente, dubladora, princesa e muitas outras coisas. A cada nova descoberta, um novo interesse, um novo sonho, uma nova brincadeira. Lembrei-me dos mapas de casas que fazia em tampas de caixas, dos personagens de filmes que gostava de imitar, das tiaras que viravam coroas, das histórias que gostava de criar. Lembrei-me das tranças feitas em colchas, dos desenhos e rabiscos nas páginas finais dos cadernos, do diário vazio de relatos, dos textos que escrevi e rasguei de vergonha, das cartas que nunca enviei. Lembrei-me dos recados no espelho escritos com batom, do bolo de morango, dos brinquedos que não ganhei e dos que tive vergonha de pedir. Lembrei-me das pastas com fotos dos meus ídolos, das fitas gravadas com minhas músicas favoritas, das bonecas rabiscadas e com cabelos cortados, cobaias do meu salão de beleza. Lembrei-me dos instrumentos que queria aprender, do violino feito com lego, do sonho de ter uma banda, viajar, falar muitas línguas e conhecer muitos países. E me lembrei do medo de chegar aos 27 anos e morrer jovem sem ter sido ou feito nada daquilo com que um dia sonhei fazer e ser ainda jovem.

E os temidos 27 anos chegaram. Não virei arquiteta, fonoaudióloga, secretária, astrônoma, roteirista ou presidente. Não aprendi nenhum instrumento, não fiz filmes, nem viajei para outros países. Muitas são as coisas que não fiz, muitas coisas não me tornei; mas pude fazer e ser tantas outras coisas ao longo desses anos que não cabe espaço para frustração ou arrependimento. Que a vida siga assim, me permitindo, ainda, ser o que eu quiser a cada dia. A cada nova descoberta, um novo interesse, um novo sonho, uma nova realização. E já que não formei minha banda, tampouco virei uma estrela do rock, acho que tenho bônus para encarar com mais otimismo os 28…

 

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *